domingo, 17 de março de 2013
SAL VERMELHO
domingo, 24 de fevereiro de 2013
VENENO
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
O DEFUNTO E A VIRGEM

(Crônicas de Minas) - Devo tudo o que sou, e olhem que não sou pouca coisa, ao velho Sabinho, criador de jias, fabricante de gaiolas e mercador de passarinhos, no Brejo Escuro. Pai de Carola, viúvo da benzedeira Gertrude e jagunço enrustido. Sabinho é isso mesmo, sabidozinho. Criava jias, para não dar na vista de seu ofício sério. E muito estranho, não usava revólver, nem faca. Dava outros jeitos. Era criativo. “Tudo que a gente faz, deve ter gosto e arte”. E assim era. Inventou um jeito de cruzar jia-pimenta com jia-boluda, que pesava mais e tinha gosto de cascudo com frango. Suas gaiolas eram cada uma diferente da outra. Fazia gaiola que parecia castelo, tão cheia de torres e outras nove-horas; tinha gaiola com jeito de igreja e até uma – própria pra cardeal cantador – com jeito do Palácio do Catete.
“Cada sujeito deve morrer de um jeito diferente, dependendo da safadeza que fez, e olhe que eu só cuido de canalha. Gente boa, pra mim, é santo”. Armava alçapões para pegar passarinhos do mesmo jeito que montava suas arapucas pra caçar os grambaus. Não sei dizer de onde ele tirou essa palavra para as suas vítimas.
Pressenti, naquele domingo, depois da missa, que ele me colocara na sua lista de grambaus. Foi o jeito que ele me olhou.
Eu estava inocente: dera de bobo e desinteressado, quando Carola abriu o jogo. Estava, como se diz, “a fim”. Esqueci do caso da mulher de Putifar; se tivesse me lembrado, ficaria também “a fim”. Carola, não sendo casada com Putifar, e estando ofendida com minha covardia (foi por medo que não a levei ao rio), deve ter contado o caso para o pai. Pronto: passei à categoria de grambau.
Tratei logo de botar água no visgo de Sabinho. Aleguei negócio urgente na capital, e viajei pro Morro Triste. Arranjei um barraco, botei lá minhas coisas, e mandei um recadeiro positivo avisar a Carola que estava “a fim”. Ela chegou de tardezinha, meio ressabiada, sinal de que eu estava certo. Abri uma garrafa de vinho doce – ela adorava vinho doce – e taquei no copo três comprimidos daqueles dos bons. Ela dormiu, e eu fiquei de olho aceso e ouvido esperto. Foi então que ouvi o barulho do chocalho. Percebi logo: cascavel ensinada. Com jeitinho, e jeitinho eu tenho, agarrei a bicha pelo pescoço, e a enfiei no pote vazio e de boca larga, tampei bem, deixei passar um bom tempo, simulei certos ruídos de prazer. Depois, dei um urro de dor. Foi a tempo de Sabinho olhar pela fresta da janela e me ver arriado no chão. Chamou pela filha, e ela dormia feito pedra. Arrombou a porta – e foi a minha vez. Ficou de costas para ver a filha, e aproveitei. Sendo ele mais maneiro de corpo, puxei o bicho pelo pescoço, e enfiei sua cara na boca do pote, e sujiguei forte. Esperei até que não se mexesse mais e me mandei, deixando para trás o defunto e a virgem.
Com o que aprendi com Sabinho, usando em outros ofícios, cheguei aonde cheguei.
domingo, 5 de agosto de 2012
AS ARMAS

Senhor de todos os respeitos, não o amavam, mas temiam seu mistério. Ali chegara trinta anos passados, com grossos contos de réis, a mulher cabisbaixa e o fordinho que, ao entrar no povoado, exigira turma de enxadeiros para arrumar a légua-e-meia de caminho ruim.
Chegara com carta de recomendação ao major Cerqueira, filho do finado coronel do mesmo nome, e por isso portador de patente menor, já que a Guarda Nacional fora extinta, mas ainda prevaleciam as honras da família. O major Cerqueira vendeu-lhe, pelo dobro do que valia, uma data de terras de capoeira nanica e brejo duro. Isso não o esmorecera; com dinheiro tudo se ajeita, e dinheiro ele tinha.
Conversando pouco, contratava seus camaradas ao preço do mercado, mas oferecia compensações secretas: mais pêlo de carne no caldeirão, litro-e-meio de cachaça aos sábados e remédios para doencinha rasteira, como desarranjo e defluxo. No armário da varanda (camarada seu não entrava da varanda pra dentro) guardava sal-de-glauber, sena, maná, magnésia e elixir paregórico, que dosava criteriosamente.
Nos trinta anos engrossou fortuna, mas não pôde prosperar família. A mulher era de barriga miúda, comentava-se, de boca a ouvido, porque, fora das paredes, ninguém sabia do que se passava entre os dois. Nunca lhe haviam visto os dentes, e, de sua boca, à parte os cumprimentos secos, só se ouviam palavras de precisão. Aquelas que davam ordens, e aquelas que tratavam de negócios. Na cidade, mesmo, seus assuntos eram poucos: comerciava com gente de fora, que lhe vinha comprar garrotes e novilhas de raça, especialista que era em melhorar o sangue de nelores uberabenses. Dizia-se (ninguém provara) que seu segredo era o incesto entre os bichos.
Levantou-se naquela quinta-feira como de seu costume, às cinco, e foi chamar o vaqueiro, mas não o encontrou no curral. Não carecia de procurar a mulher, mortíssima havia meses já – mas foi até o quarto da cozinheira, que tampouco estava. “Ó gente, que passa aqui, que não tem ninguém?” – resmungou. Saiu um pouco. Da varanda via o povoado todo, com suas vinte e oito casas. Era verão alto, e o sol brilhava. Não viu vulto que fosse. Às seis chegariam seus camaradas, e o vaqueiro e a cozinheira (ele já desconfiava) deviam estar pelo retirinho, mais no seguro, acordando de safadezas. Esperaria.
As sete, pela primeira vez na vida, ele mesmo coou café forte, cortou uma fatia de queijo e resolveu chegar ao arraial. O arraial também estava vazio. Deu-lhe então o sério pressentimento de que o haviam achado. Voltou apressado para casa, o coração socando o peito, à espera de uma bala nas costas – mas, nada. Só havia o silêncio. Ao chegar ouviu mugidos horríveis no estábulo. Seu reprodutor de duzentos contos, estava peado e castrado. As outras reses agonizavam devagar, meio sangradas pelo pescoço. Eram eles. Entrou, e viu que não tinha uma só arma
Voltou para o cadeirão da varanda e, pela primeira vez a paisagem ouvia sua gargalhada: “apareçam, se são homens. Venham, seus frouxos.” Calou-se, ao sentir a velha e companheira dor no peito. Mas não enfiou a mão no bolsinho da camisa para apanhar o comprimido. Levantou-se da cadeira, sentou-se na rede, gritou:
- Já que vocês não chegam, vou tirar uma soneca. Quem sabe arranjam coragem?
Respirou fundo, deu uma banana para a paisagem quieta, recostou-se, e agüentou, prazeroso, a dor da angina. Quando, finalmente, rastejaram até a varanda, ele ria de olhos fechados, e dois dedos, o polegar e o indicador, se juntavam, hirtos, no gesto obsceno.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
O ILUMINADO

Quando lhe perguntei se era médium, respondeu-me que sim, mas de seu próprio espírito, e desenvolveu a teoria de que, se os espíritos dos mortos conhecem o destino alheio, os espíritos dos vivos também o conhecem. A diferença, me disse, sério, é que a carne atrapalha. Quando um espírito encarnado consegue vencer a barreira do corpo e valer-se dos neurônios apenas como instrumento e não como órgão pensante, disse, qualquer um é iluminado. Esse era o seu caso. Narrou o que eu sofreria na vida (e tem acertado), mas não me disse que teria alegrias. “A alegria deve ser sempre uma surpresa; do contrário, não tem graça”. Como eu estivesse entrando na puberdade, perguntei, sério, como seria a minha vida amorosa, e ele manteve a postura. Só me contou de amores perdidos, de amores frustrados, de desilusões. “A parte boa será surpresa, e os bons videntes não devem tratar de surpresas, entre elas a maior de todas, que é a da hora da morte”.
Vivia de seu ofício, sem constrangimento: “os médicos não cobram? Os sacerdotes não recebem espórtulas? O consolo é um serviço que prestamos, que toma o nosso tempo, e o tempo é inelástico, o tempo de vida é a única propriedade que temos, e toda propriedade deve render, não é mesmo?”
Achei curioso o seu raciocínio, embora o considerasse meio mercenário. Mas, o que cobrava era tão pouco, que me senti explorador de seus serviços.
Sua casa ficava em uma de minhas rotas habituais, que, naquela época, eu percorria de dois em dois meses. Vivia normalmente, com sua mulher, uma morena trintona (ele tinha mais de 50). As duas filhas adolescentes estudavam na cidade, estavam com a avó. Perto corria o Rio Paraopeba, ainda piscoso, e os pescadores, ao passar, sempre deixavam algum peixe, que ele aceitava moderadamente. Não queria peixe para apodrecer. Não pescava, nem trabalhava em coisa alguma. “Meu tempo é pouco para pensar, e sei quando alguém está chegando, e começo a ver sua vida, antes mesmo de ele sentar nessa cadeira aí”. A cadeira, forrada de taboca trançada, era vermelha, cor, que segundo ele, prende a alma ao corpo. “É a cor do sangue, não é?”
Anotei muitas de suas observações sobre o mundo e a vida. Quando o vi pela última vez, estava muito doente, mas não sabia quando iria morrer, embora pressentisse que não demoraria muito. “É a grande surpresa”, me disse, sorrindo, sem falsa resignação. E me deu algumas de suas anotações sobre o jeito de viver em paz, em dois grossos cadernos. Disse-me que aquelas idéias não serviriam apenas para mim. Serviriam para todos os que as lessem, porque as almas são todas iguais, e o que muda é o lado de fora da vida, ou, seja, o mundo.
Surpresa, mesmo, eu tive quando passei pela última vez pela casa de sua viúva, a morena Durva. Ela resolvera viver de sua sensualidade e lascívia, recebendo os clientes que passavam pela estrada. Recusei seus serviços, com elegância, embora tenha sido difícil dispensar aquelas formas e o chamado dos olhos e dos lábios. Mas sempre fui cauteloso.
Um dos projetos que provavelmente nunca cumprirei é o de reescrever as recomendações de Geraldo Osório, porque, ainda que bom de idéias, ele não era forte em ortografia e
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
O SINAL DA CRUZ

Quando chegou, pernas e braços perebentos, alguns riram, mas houve os que o olharam com compaixão. Nos baldios humanos em que nos cumpria existir, era normal que ríssemos diante das desgraças alheias: era uma forma de exorcizar o nosso próprio sofrimento. O menino era cheio de outras marcas, todas estranhas. Trazia, no peito, dependurada em uma corrente de cobre, a cruz de pedra, talhada por suas próprias mãos, segundo nos disse. Nas nervuras minerais mostrava-nos alguns sinais, de longe sugerindo números e letras, nas quais lia pequenos apocalipses. Andava sempre em zig-zag, olhava sempre para o céu e para o chão, cuspia sobre os próprios pés descalços, como os de todos nós.
Deixamos de rir quando nos chegou, por ele anunciada, a primeira desgraça. “Vejo sangue no meio do pátio, um caixão e muito choro” – falou-nos, depois de haver, em um canto, e sozinho, rezado a ave-maria das 6 horas da tarde. “Eu não quero saber de conversa com malucos” – advertiu Enéias, persignando-se. O menino olhou-o com tristeza: “Brinca muito Enéias, e conversa hoje com todos os seus amigos.”
No dia seguinte, antes do almoço, no meio do pátio, Enéias deixou, correndo, a formação dos que vinham da roça, para buscar uma carta na Secretaria. Levava a enxada, para deixá-la, antes, na sala-de-ferramentas: tropeçou e caiu, o peito magro sobre a lâmina. Nós o sepultamos, no dia seguinte. Todos choramos, também de medo. O menino, com suas perebas e sua cruz, parecia ser o senhor de nossa vida e de nossa morte.
“Se vocês quiserem viver, devem rezar muito, e deixar o pecado” – pregava, e o ouvíamos
“Desprezar os mandamentos de Deus é o caminho do inferno” – pregava, enigmático, enquanto passava pelos grupos, reunidos nos cantos das paredes pelo frio da serra.
Não lhe dirigíamos a palavra: só respondíamos ao que perguntava, e o que perguntava era pouco: “Vocês viram o fulano? O fulano está muito chateado. Recebeu uma cara de casa dizendo que a mãe está doente. Conversem com ele.” Não conversávamos.
Quando Geraldo fugiu e foi apanhado, o menino nos avisou no dormitório. Soprou para o seu companheiro de lado: “Passa pra frente: pegaram o Geraldo na estrada, ele vai chegar amanhã cedo com um soldado.”
Era verão alto, e às 6 da manhã, antes que soasse o apito para a formação dos que iam para o serviço no campo, o menino, sozinho, colocou-se sob a grande paineira e começou a rezar o credo em voz muito alta. O chefe de disciplina ordenou-lhe que fizesse silêncio. “Só obedeço a Deus Nosso Senhor, e rezo por Geraldo que vai sofrer por todos os pecadores” – respondeu, altivo. O chefe de disciplina apitou para a formatura, e o menino não se moveu, continuando a rezar. “Deixa ele acabar de rezar”, aconselhou Martins, um funcionário experiente. “Ele é manso, só tem mania de rezar.”
Antes que terminasse sua oração, chegou Geraldo. O chefe de disciplina recebeu-o com o bofetão nos ouvidos. O menino, debaixo da paineira, gritou-nos: “Vamos rezar juntos, vamos rezar juntos” – e puxou o padre-nosso. Todos o acompanhamos, em voz muito alta. “Cala, cambada de vagabundos” – gritou, histérico, o chefe de disciplina. “Cala todo mundo, ou vou moer no pau este cachorro aqui.”
--“Vamos rezar, gente” – impelia-nos o menino - “o pão nosso, de cada dia, nos daí hoje”.
Gritávamos a oração, e, alucinado, o chefe de disciplina chutava Geraldo, que começou a pôr sangue pelas narinas. “Ele sofre por nós” – explicava o menino, ainda de joelhos, e passava à “salve-rainha”.
Alguém chamou o diretor, que veio correndo, e subjugou o auxiliar pelos ombros. “Você está louco? Estão todos loucos?”
No chão, a camisa de zuarte empapada em sangue, Geraldo não se movia. “Você matou o menino! Vamos, você matou o menino?”
Levantou-se então o “rezador”, como o chamávamos, e disse ao diretor que se acalmasse. “Ele não morreu, está sofrendo por nós.”
Duas semanas depois, levaram o menino para um manicômio. “Ele estava pondo os meninos todos loucos” – ouvi o diretor explicar a um tio que fora vê-lo. “Lá, naturalmente, vai sarar.”
Sabíamos que não. Um dia antes, no dormitório, ele passou-nos a mensagem: “Amanhã começa meu martírio. Rezem por mim.” Durante uns dias, rezamos. Depois, o esquecemos.
terça-feira, 26 de julho de 2011
JUDAS SEM TESTAMENTO
“Durante muitos meses mandou e desmandou. Os que ele denunciou, foram para a cadeia, beberam urina de cachorro e comeram angu de farelo e óleo de rícino; apanharam com cipó-de-boi e fizeram penitência, ajoelhados em contas de lágrimas de Nossa Senhora. Muitos perderam suas fazendas.


