domingo, 17 de março de 2013

SAL VERMELHO


O que vou contar ocorreu entre o dia 27 de março e 26 de junho de 1928. Durou 13 semanas exatas, ou 91 dias, de acordo com a memória de Demétrio Alexandrino Queirós, mestre em capação variada (de frango a elefante) e maçom renegado, inscrito no Livro Negro por desvios singulares e bem humanos.
Não fosse o povo de Cauaçu reles e egoísta, gente ordinária e pedan­te, devotada aos pecados sem prazer  - visto que são perdoados os pecados que alegram os sentidos e podem ser divididos em sua prática, como os de cama e mesa; e nefandos os do êxtase solitário, como os da avareza, da soberba e do onanismo -   não guardaria na memória a narração de Demétrio, uma das estórias exemplares    do sertão alto.
Convém gastar mais um pouco de tempo com a geografia física e moral de Cauaçu, para o bom en­tendimento do castigo. Ilha de terras roxas e úmidas, tão molhadas que os raríssimos calhaus chegavam a suar em pleno verão, o município era também o único ponto, em toda a comprida chapada, de chuva regular. Chuva fina, como se São Pedro tivesse ins­talado um chuveiro maneiro em cima daquele pedaço. Com água de cima e água de baixo, nascia ali o Cauaçu que, ao contrário de todos os rios, não crescia: descendo rumo ao Carinhanha entrava em terras sequíssimas e esponjosas, e acabava por desaparecer, reduzido a mero rego de palmo e meio, no Açude Velho, valhacouto dos restolhos humanos de toda aquela vasta e outrora esquecida zona.
Cauaçu era cidade dos paióis sempre cheios, de porcos de 15 arrobas,  arroz de soca, de três cortes e espigada cheia, e gente que chegava aos 90, cavalgando em pêlo e sem dor nas cadeiras. Mas – e isso era o que mais espantava os raros visitantes – não havia, no mundo inteiro, canalhas tão bem acabados. Primeiro, eram de especial avareza. Desde tempos muito velhos, juntavam ali suas moedas de ouro. Fazia-as mestre Cirilo, filho e neto de outros Cirilos, e punha em cada uma delas a efígie do cliente, cercado de seu nome e, no anverso, as armas de Cauaçu: pé-de-meia cheio e a frase antiga: "Vintém poupado, vintém ganho.” Tais moedas não circulavam: estava convencionado, e havia muito, que era a maior desonra desfazer-se de uma só delas. Cirilo não só as marcava, bem como as numerava e delas mantinha registro.
O arraial de Açude Velho, depósito da ralé, fora fundado por Negra Jovina, amásia do beato Mané Consola, morto por uma patrulha da Força Pública, em episódio que não cabe aqui, e fica para ser contado depois. Jovina  juntou ali cegos, leprosos, sifilíticas, aleijadas, abobados. Deus sabe como conseguia mantê-los, cozinhando raízes do mato, fazendo sopa de ervas do brejo e, segundo injuriosa gozação do pessoal de Cauaçu, assando pererecas e gafanhotos.
No início de março de 36 passou pela estrada, ao lado do Açude, um circo mambembe, e houve o acidente. Uma das moças, grávida de meses, caiu do cavalo,  abortou. Teve hemorragia brutal, ia morrer, e a salvou Jovina com benzedura, sal vermelho e  chá de osso de capivara. O dono do circo ficou conhecendo a história do arraial desprezado. Houve então o convite: aparecessem na Quinta-feira, em Cauaçu – a primeira função do circo seria apenas  para eles. No sábado seguinte, o espetáculo começaria oficialmente.
É fácil saber como reagiu aquela gente ordinária de Cauaçu, desviada dos mandamentos de Cristo e entregue à volúpia do ouro, quando soube do descabido privilégio. Encomendaram a De­métrio a capação do elefante, que dormia ao lado do circo, descuidado. Deram-lhe dose brutal de clorofórmio, e o bicho arriou. Demétrio fez o serviço, suturou o corte e passou creolina. Depois mandaram o cabo e os quatro soldados do Destacamento esperar a corja do Açude na entrada da cidade. Aos da frente,  deram  instrumentos musicais: cornetas, flautins, tambores, pandeiros e taróis. Sob os gritos dos soldados, e  a mira dos três mosquetões 1914, da dotação do Destacamento,  entraram na cidade tocando um dobrado imaginário e foram depois escorraçados a tiros de sal grosso.
Não se sabe se a idéia foi de Jovina, das pessoas do circo ou dos próprios bichos - quem sabe? -, Cauaçu foi arrasada naquela noite. Com a ajuda dos animais, o elefante, meio trôpego pelo ferimento, mas decidido, e a zebra, à frente, os miseráveis do Açude  tomaram a cidade, prenderam os cabeças e obrigaram os outros a servi-los, entre os quais os bravos militares,  vencidos pelo medo. Uns contam que fizeram mal às donzelas e que Demétrio foi forçado a  empregar  seus talentos de castração  “in anima nobile”, o que ele desmentiu. Tenho depoimentos seguros de que não houve tais abusos.  Aquela gente quis viver suas treze semanas, sem fome e com a dignidade do poder. Depois ajustaram o pacto, dividiram entre si as moedas de ouro encontradas e se dispersaram no mundo. Um deles, leproso, virou fazendeiro grosso no Urucuia. 

Desertado de seus ex-miseráveis, o Arraial do Açude Velho desapareceu do mapa. A gente de Cauaçu, que mudou de nome, continua ordinária até hoje.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

VENENO


                    Até que ficasse provada a minha condição de homem de miúdos negócios, e assim se explicasse a Luger 7.65, com seus dois pentes carregados, pude aprender muito da vida com Conselhinho e seus companheiros. Como eu podia saber que andavam catando assassinos entre os romeiros? Soube depois que era o medo do prefeito. Boas não fizera em outra cidade da região: desencaminhara e deixara a chorar no toco a filha de fazendeiro forte. Resultado: suicídio de um lado e o pavor do outro.

                      Na verdade eu tinha mesmo jeito suspeitoso. Uma faringite baixava o tom de voz, fazendo-a mole e vasqueira: eu só falava o necessário. E até mesmo o sestro que eu tinha, e tenho, de esfregar a papila do polegar na segunda falange do indicador da mão direita me fez azar: o delegado achou que o calo era de acionar gatilho. Para encurtar a conversa, meteram-me na cadeia pública.

                    Os três que lá estavam não eram suspeitos. Ao contrário, gente de crimes bem provados, que preferia curtir ali mesmo suas penas, bem longe das grandes penitenciárias, e se ajeitava para isso. Conselhinho, de rosto magro, barbinha branca, olhos cinzentos, merecia o apelido. Logo que entrei, levado pelo soldado Hugo (que depois ficou meu amigo) pôs a mão sobre meu ombro, e começou: “Vou te dar um conselhinho ...”

Conselhinho matara muita gente, e só foi preso anos depois do primeiro crime. O açougueiro comprara-lhe uma vaca para abate, como era costume. Antes de chegar ao matadouro, o animal caiu morto. Conselhinho se negou a indenizar. “Uai, e eu com isso? Quando vendi, estava com saúde. Eu lá tenho culpa de ela ter adoecido no caminhão?”  Conversa de cá, conversa de lá, o açougueiro, que era forte e sangüíneo, quis buscar o seu no bolso de Conselhinho. A lapiana, lambedeira de palmo e meio, apareceu na mão do magrelo como um raio, de tão de repente. Depois de condenado a trinta anos, Conselhinho passou a contar as outras mortes.

- Eu não matava por necessidade. Via um sujeito, não gostava do andado, dava um jeito nele. Nunca me pegaram porque quem é que ia pensar neste seu criado? Sempre dando um conselhinho, sempre ajudando os outros? Pois é, quando tive precisão mesmo de matar, aí me pegaram. A gente, na vida, não pode ter precisão.

                       A mulher levava-lhe, todos os dias, a “melhora” da bóia, que ele repartia com todos. Variava sempre: guisado de abobrinha, cambuquira com carne de porco, cascudos fritos, dobradinha temperada com manjericão e urucum. O arroz sem muito gosto com feijão mulatinho, fornecido à cadeia pela mulher do sargento, ficava palatável com a  “mistura”.

                       Quando reclamei da situação, dizendo que alguém devia estar roubando do governo, pra fornecer comida tão ruim (e assim reforçar a gratidão ao companheiro), recebi logo um “conselhinho”:

                      - Fica quieto. A velha não está trazendo o molho? Depois, quanto é que ganha o sargento? O filho dele é paralítico e meio doido.

                     Entendia muitos assuntos. Para bambeira de coração, veneno de três abelhões:

                   - De mamangaba da legitima, a que dá certo. Bom mesmo é fazer elas ferroar a veia do pescoço, duas do lado esquerdo e uma do lado direito. Quando desincha, o coração fica esperto.

                    Ensinava também como homem deve tomar banho para segurar mulher: com água de chuva bem quente, depois de fervida em capim-de-cheiro.

                    Serafim o mais velho dos outros dois, matara a mulher a pauladas. Nunca disse por que a matara. Mas, pelo jeito ele preferira alegar motivo fútil e comer cadeia grossa, a ficar com a honra ultrajada. Tinha duas filhas que o visitavam no domingo, e traziam sempre um queijo fresco. O outro, o Pereira, era ladrão de cavalos. Quando perguntei por seu crime, respondeu, orgulhoso, “abigeato”.

                    Dormíamos pouco. Durante o tempo de sono de Conselhinho, que, muito picado, vigiávamos. Ele se levantava, contava os barrotes do janelão, conferia os da porta, perguntava muito surpreso a quem estivesse de guarda:

                   - Uai, acordado?

                   Como se não tivesse sido dele mesmo o aviso: muito cuidado com quem dorme sem sossego.



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

O DEFUNTO E A VIRGEM


(Crônicas de Minas) - Devo tudo o que sou, e olhem que não sou pouca coisa, ao velho Sabinho, criador de jias, fabricante de gaiolas e mercador de passarinhos, no Brejo Escuro. Pai de Carola, viúvo da benzedeira Gertrude e jagunço enrustido. Sabinho é isso mesmo, sabidozinho. Criava jias, para não dar na vista de seu ofício sério. E muito estranho, não usava revólver, nem faca. Dava outros jeitos. Era criativo. “Tudo que a gente faz, deve ter gosto e arte”. E assim era. Inventou um jeito de cruzar jia-pimenta com jia-boluda, que pesava mais e tinha gosto de cascudo com frango. Suas gaiolas eram cada uma diferente da outra. Fazia gaiola que parecia castelo, tão cheia de torres e outras nove-horas; tinha gaiola com jeito de igreja e até uma – própria pra cardeal cantador – com jeito do Palácio do Catete.

“Cada sujeito deve morrer de um jeito diferente, dependendo da safadeza que fez, e olhe que eu só cuido de canalha. Gente boa, pra mim, é santo”. Armava alçapões para pegar passarinhos do mesmo jeito que montava suas arapucas pra caçar os grambaus. Não sei dizer de onde ele tirou essa palavra para as suas vítimas.

Pressenti, naquele domingo, depois da missa, que ele me colocara na sua lista de grambaus. Foi o jeito que ele me olhou.

Eu estava inocente: dera de bobo e desinteressado, quando Carola abriu o jogo. Estava, como se diz, “a fim”. Esqueci do caso da mulher de Putifar; se tivesse me lembrado, ficaria também “a fim”. Carola, não sendo casada com Putifar, e estando ofendida com minha covardia (foi por medo que não a levei ao rio), deve ter contado o caso para o pai. Pronto: passei à categoria de grambau.

Tratei logo de botar água no visgo de Sabinho. Aleguei negócio urgente na capital, e viajei pro Morro Triste. Arranjei um barraco, botei lá minhas coisas, e mandei um recadeiro positivo avisar a Carola que estava “a fim”. Ela chegou de tardezinha, meio ressabiada, sinal de que eu estava certo. Abri uma garrafa de vinho doce – ela adorava vinho doce – e taquei no copo três comprimidos daqueles dos bons. Ela dormiu, e eu fiquei de olho aceso e ouvido esperto. Foi então que ouvi o barulho do chocalho. Percebi logo: cascavel ensinada. Com jeitinho, e jeitinho eu tenho, agarrei a bicha pelo pescoço, e a enfiei no pote vazio e de boca larga, tampei bem, deixei passar um bom tempo, simulei certos ruídos de prazer. Depois, dei um urro de dor. Foi a tempo de Sabinho olhar pela fresta da janela e me ver arriado no chão. Chamou pela filha, e ela dormia feito pedra. Arrombou a porta – e foi a minha vez. Ficou de costas para ver a filha, e aproveitei. Sendo ele mais maneiro de corpo, puxei o bicho pelo pescoço, e enfiei sua cara na boca do pote, e sujiguei forte. Esperei até que não se mexesse mais e me mandei, deixando para trás o defunto e a virgem.

Com o que aprendi com Sabinho, usando em outros ofícios, cheguei aonde cheguei.

domingo, 5 de agosto de 2012

AS ARMAS



Senhor de todos os respeitos, não o amavam, mas temiam seu mistério. Ali chegara trinta anos passados, com grossos contos de réis, a mulher cabisbaixa e o fordinho que, ao entrar no povoado, exigira turma de enxadeiros para arrumar a légua-e-meia de caminho ruim.

Chegara com carta de recomendação ao major Cerqueira, filho do finado coronel do mesmo nome, e por isso portador de patente menor, já que a Guarda Nacional fora extinta, mas ainda prevaleciam as honras da família. O major Cerqueira vendeu-lhe, pelo dobro do que valia, uma data de terras de capoeira nanica e brejo duro. Isso não o esmorecera; com dinheiro tudo se ajeita, e dinheiro ele tinha.

Conversando pouco, contratava seus camaradas ao preço do mercado, mas oferecia compensações secretas: mais pêlo de carne no caldeirão, litro-e-meio de cachaça aos sábados e remédios para doencinha rasteira, como desarranjo e defluxo. No armário da varanda (camarada seu não entrava da varanda pra dentro) guardava sal-de-glauber, sena, maná, magnésia e elixir paregórico, que dosava criteriosamente.

Nos trinta anos engrossou fortuna, mas não pôde prosperar família. A mulher era de barriga miúda, comentava-se, de boca a ouvido, porque, fora das paredes, ninguém sabia do que se passava entre os dois. Nunca lhe haviam visto os dentes, e, de sua boca, à parte os cumprimentos secos, só se ouviam palavras de precisão. Aquelas que davam ordens, e aquelas que tratavam de negócios. Na cidade, mesmo, seus assuntos eram poucos: comerciava com gente de fora, que lhe vinha comprar garrotes e novilhas de raça, especialista que era em melhorar o sangue de nelores uberabenses. Dizia-se (ninguém provara) que seu segredo era o incesto entre os bichos.

Levantou-se naquela quinta-feira como de seu costume, às cinco, e foi chamar o vaqueiro, mas não o encontrou no curral. Não carecia de procurar a mulher, mortíssima havia meses já – mas foi até o quarto da cozinheira, que tampouco estava. “Ó gente, que passa aqui, que não tem ninguém?” – resmungou. Saiu um pouco. Da varanda via o povoado todo, com suas vinte e oito casas. Era verão alto, e o sol brilhava. Não viu vulto que fosse. Às seis chegariam seus camaradas, e o vaqueiro e a cozinheira (ele já desconfiava) deviam estar pelo retirinho, mais no seguro, acordando de safadezas. Esperaria.

As sete, pela primeira vez na vida, ele mesmo coou café forte, cortou uma fatia de queijo e resolveu chegar ao arraial. O arraial também estava vazio. Deu-lhe então o sério pressentimento de que o haviam achado. Voltou apressado para casa, o coração socando o peito, à espera de uma bala nas costas – mas, nada. Só havia o silêncio. Ao chegar ouviu mugidos horríveis no estábulo. Seu reprodutor de duzentos contos, estava peado e castrado. As outras reses agonizavam devagar, meio sangradas pelo pescoço. Eram eles. Entrou, e viu que não tinha uma só arma em casa. Mas não iria pedir misericórdia. Já sabia o que ocorrera: saídos da cadeia, os três se juntaram para vir atrás dele, que nunca cumprira nada do prometido – nem mesmo olhar pela mulher do Santos, que estava grávida, nem mesmo pagar a operação do pai de Durvalino. Tinham esvaziado o arraial, indo de casa em casa durante a noite – e como ninguém ali o estimava, fora fácil mandar todos para assistir, dos altos, ao seu fim. Queriam matá-lo de medo. Era o que ele faria se estivesse no lugar deles – e um deles estivesse em seu lugar. Mas estavam lidando com lacrau. De medo, não. De bala sim, ou , quem sabe, talvez. Foi para a varanda, sentou-se na cadeira alta, tirou a camisa e ofereceu o peito magro como alvo. Mas não houve tiro. Ouviu barulhos no fundo, não se moveu. Com fome, o sol a pino, levantou-se devagar, foi à cozinha, cortou um pedaço de charque, chamuscou-o no borralho, comeu. Tirou, com a cuia, água do pote e levou-a à boca: estava amarga, purgativa. Não bebeu. Ao meio dia os passarinhos sempre cantavam, e estavam mudos. Haviam posto arsênico no alpiste.

Voltou para o cadeirão da varanda e, pela primeira vez a paisagem ouvia sua gargalhada: “apareçam, se são homens. Venham, seus frouxos.” Calou-se, ao sentir a velha e companheira dor no peito. Mas não enfiou a mão no bolsinho da camisa para apanhar o comprimido. Levantou-se da cadeira, sentou-se na rede, gritou:

- Já que vocês não chegam, vou tirar uma soneca. Quem sabe arranjam coragem?

Respirou fundo, deu uma banana para a paisagem quieta, recostou-se, e agüentou, prazeroso, a dor da angina. Quando, finalmente, rastejaram até a varanda, ele ria de olhos fechados, e dois dedos, o polegar e o indicador, se juntavam, hirtos, no gesto obsceno.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O ILUMINADO


Quando lhe perguntei se era médium, respondeu-me que sim, mas de seu próprio espírito, e desenvolveu a teoria de que, se os espíritos dos mortos conhecem o destino alheio, os espíritos dos vivos também o conhecem. A diferença, me disse, sério, é que a carne atrapalha. Quando um espírito encarnado consegue vencer a barreira do corpo e valer-se dos neurônios apenas como instrumento e não como órgão pensante, disse, qualquer um é iluminado. Esse era o seu caso. Narrou o que eu sofreria na vida (e tem acertado), mas não me disse que teria alegrias. “A alegria deve ser sempre uma surpresa; do contrário, não tem graça”. Como eu estivesse entrando na puberdade, perguntei, sério, como seria a minha vida amorosa, e ele manteve a postura. Só me contou de amores perdidos, de amores frustrados, de desilusões. “A parte boa será surpresa, e os bons videntes não devem tratar de surpresas, entre elas a maior de todas, que é a da hora da morte”.

Vivia de seu ofício, sem constrangimento: “os médicos não cobram? Os sacerdotes não recebem espórtulas? O consolo é um serviço que prestamos, que toma o nosso tempo, e o tempo é inelástico, o tempo de vida é a única propriedade que temos, e toda propriedade deve render, não é mesmo?”

Achei curioso o seu raciocínio, embora o considerasse meio mercenário. Mas, o que cobrava era tão pouco, que me senti explorador de seus serviços.

Sua casa ficava em uma de minhas rotas habituais, que, naquela época, eu percorria de dois em dois meses. Vivia normalmente, com sua mulher, uma morena trintona (ele tinha mais de 50). As duas filhas adolescentes estudavam na cidade, estavam com a avó. Perto corria o Rio Paraopeba, ainda piscoso, e os pescadores, ao passar, sempre deixavam algum peixe, que ele aceitava moderadamente. Não queria peixe para apodrecer. Não pescava, nem trabalhava em coisa alguma. “Meu tempo é pouco para pensar, e sei quando alguém está chegando, e começo a ver sua vida, antes mesmo de ele sentar nessa cadeira aí”. A cadeira, forrada de taboca trançada, era vermelha, cor, que segundo ele, prende a alma ao corpo. É a cor do sangue, não é?”

Anotei muitas de suas observações sobre o mundo e a vida. Quando o vi pela última vez, estava muito doente, mas não sabia quando iria morrer, embora pressentisse que não demoraria muito. “É a grande surpresa”, me disse, sorrindo, sem falsa resignação. E me deu algumas de suas anotações sobre o jeito de viver em paz, em dois grossos cadernos. Disse-me que aquelas idéias não serviriam apenas para mim. Serviriam para todos os que as lessem, porque as almas são todas iguais, e o que muda é o lado de fora da vida, ou, seja, o mundo.

Surpresa, mesmo, eu tive quando passei pela última vez pela casa de sua viúva, a morena Durva. Ela resolvera viver de sua sensualidade e lascívia, recebendo os clientes que passavam pela estrada. Recusei seus serviços, com elegância, embora tenha sido difícil dispensar aquelas formas e o chamado dos olhos e dos lábios. Mas sempre fui cauteloso.

Um dos projetos que provavelmente nunca cumprirei é o de reescrever as recomendações de Geraldo Osório, porque, ainda que bom de idéias, ele não era forte em ortografia e em sintaxe. Afinal, não podemos exigir tudo dos espíritos, encapsulados neste nosso corpo imperfeito e perecível.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O SINAL DA CRUZ

Quando chegou, pernas e braços perebentos, alguns riram, mas houve os que o olharam com compaixão. Nos baldios humanos em que nos cumpria existir, era normal que ríssemos diante das desgraças alheias: era uma forma de exorcizar o nosso próprio sofrimento. O menino era cheio de outras marcas, todas estranhas. Trazia, no peito, dependurada em uma corrente de cobre, a cruz de pedra, talhada por suas próprias mãos, segundo nos disse. Nas nervuras minerais mostrava-nos alguns sinais, de longe sugerindo números e letras, nas quais lia pequenos apocalipses. Andava sempre em zig-zag, olhava sempre para o céu e para o chão, cuspia sobre os próprios pés descalços, como os de todos nós.

Deixamos de rir quando nos chegou, por ele anunciada, a primeira desgraça. “Vejo sangue no meio do pátio, um caixão e muito choro” – falou-nos, depois de haver, em um canto, e sozinho, rezado a ave-maria das 6 horas da tarde. “Eu não quero saber de conversa com malucos” – advertiu Enéias, persignando-se. O menino olhou-o com tristeza: “Brinca muito Enéias, e conversa hoje com todos os seus amigos.”

No dia seguinte, antes do almoço, no meio do pátio, Enéias deixou, correndo, a formação dos que vinham da roça, para buscar uma carta na Secretaria. Levava a enxada, para deixá-la, antes, na sala-de-ferramentas: tropeçou e caiu, o peito magro sobre a lâmina. Nós o sepultamos, no dia seguinte. Todos choramos, também de medo. O menino, com suas perebas e sua cruz, parecia ser o senhor de nossa vida e de nossa morte.

“Se vocês quiserem viver, devem rezar muito, e deixar o pecado” – pregava, e o ouvíamos em silêncio. Que pecados deixar? Fora os primeiros, solitários, que outros haveria? É verdade que colhíamos, como se as roubássemos, as frutas do pomar e alguns legumes da horta, mas sabíamos que aquilo nos pertencia, porque éramos nós que plantávamos e cuidávamos, mas os funcionários é que desfrutavam de nosso trabalho, além de comer da carne e dos mantimentos que o governo mandava para nós. Assim, não havia culpa, não havia pecado. Não tínhamos nem mesmo inveja, porque, entre nós, não havia a quem invejar.

“Desprezar os mandamentos de Deus é o caminho do inferno” – pregava, enigmático, enquanto passava pelos grupos, reunidos nos cantos das paredes pelo frio da serra.

Não lhe dirigíamos a palavra: só respondíamos ao que perguntava, e o que perguntava era pouco: “Vocês viram o fulano? O fulano está muito chateado. Recebeu uma cara de casa dizendo que a mãe está doente. Conversem com ele.” Não conversávamos.

Quando Geraldo fugiu e foi apanhado, o menino nos avisou no dormitório. Soprou para o seu companheiro de lado: “Passa pra frente: pegaram o Geraldo na estrada, ele vai chegar amanhã cedo com um soldado.”

Era verão alto, e às 6 da manhã, antes que soasse o apito para a formação dos que iam para o serviço no campo, o menino, sozinho, colocou-se sob a grande paineira e começou a rezar o credo em voz muito alta. O chefe de disciplina ordenou-lhe que fizesse silêncio. “Só obedeço a Deus Nosso Senhor, e rezo por Geraldo que vai sofrer por todos os pecadores” – respondeu, altivo. O chefe de disciplina apitou para a formatura, e o menino não se moveu, continuando a rezar. “Deixa ele acabar de rezar”, aconselhou Martins, um funcionário experiente. “Ele é manso, só tem mania de rezar.”

Antes que terminasse sua oração, chegou Geraldo. O chefe de disciplina recebeu-o com o bofetão nos ouvidos. O menino, debaixo da paineira, gritou-nos: “Vamos rezar juntos, vamos rezar juntos” – e puxou o padre-nosso. Todos o acompanhamos, em voz muito alta. “Cala, cambada de vagabundos” – gritou, histérico, o chefe de disciplina. “Cala todo mundo, ou vou moer no pau este cachorro aqui.”

--“Vamos rezar, gente” – impelia-nos o menino - “o pão nosso, de cada dia, nos daí hoje”.

Gritávamos a oração, e, alucinado, o chefe de disciplina chutava Geraldo, que começou a pôr sangue pelas narinas. “Ele sofre por nós” – explicava o menino, ainda de joelhos, e passava à “salve-rainha”.

Alguém chamou o diretor, que veio correndo, e subjugou o auxiliar pelos ombros. “Você está louco? Estão todos loucos?”

No chão, a camisa de zuarte empapada em sangue, Geraldo não se movia. “Você matou o menino! Vamos, você matou o menino?”

Levantou-se então o “rezador”, como o chamávamos, e disse ao diretor que se acalmasse. “Ele não morreu, está sofrendo por nós.”

Duas semanas depois, levaram o menino para um manicômio. “Ele estava pondo os meninos todos loucos” – ouvi o diretor explicar a um tio que fora vê-lo. “Lá, naturalmente, vai sarar.”

Sabíamos que não. Um dia antes, no dormitório, ele passou-nos a mensagem: “Amanhã começa meu martírio. Rezem por mim.” Durante uns dias, rezamos. Depois, o esquecemos.

terça-feira, 26 de julho de 2011

JUDAS SEM TESTAMENTO

(Documento atualíssimo, que narra estranho fato ocorrido no Ano da Graça de 1844, transcrito com a ortografia atualizada).

Relato que fez ao reverendíssimo senhor bispo de Mariana o padre José Manuel da Ribeira, vigário da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Paraopeba, na segunda-feira depois da Aleluia do ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e quarenta e quatro.
“Louvado seja Nosso Senhor:
“Levo ao conhecimento de Vossa Eminência Reverendíssima estranhíssimo fato ocorrido em nossa freguesia, nesta última Semana Santa. Para narrar a Vossa Eminência o acontecido, sou obrigado a voltar há mais de um ano, quase dois. Aqui na cidade e município de Nosso Senhor do Bonfim do Paraopeba houve, como sabe Vossa Eminência, combates e lutas políticas por ocasião da Revolução encabeçada por José Feliciano Pinto Coelho e Teófilo Benedito Ottoni. Quando foram vencidos os liberais, e aqui entraram as forças legalistas, houve como pode imaginar Vossa Eminência, muitas prisões.

“Não quero dizer a Vossa Eminência da justiça ou injustiça delas, posto que, homem de fé, sempre me comportei em obediência ao santo papa, aos príncipes da Igreja e à sua majestade imperial, nosso senhor dom Pedro II. Quando as forças legais entraram na cidade, elas foram guiadas por um tal Eusébio Fonseca Sorono, negociante de tropas, capangueiro de dentes de ouro, homem de miúdo comércio. Constava então que ele levou os oficiais do senhor general Caxias aos principais cabeças da Revolução aqui, em troca do emprego de recebedor das rendas aqui no município e comarca, posto que ele ocupou até as festas da Paixão de Nosso Senhor. Durante muitos meses, Eminência, ele passeou sua soberba e sua força por nossa comarca. A mim mesmo me ofendeu certa vez em que estive aqui, em Piedade, para visita aos pais dele (que são gente da melhor honradez), mas nem quero referir o ato a Vossa Eminência.

Apanharam com cipó-de-boi e fizeram penitência, ajoelhados em contas de lágrimas de Nossa Senhora.



“Durante muitos meses mandou e desmandou. Os que ele denunciou, foram para a cadeia, beberam urina de cachorro e comeram angu de farelo e óleo de rícino; apanharam com cipó-de-boi e fizeram penitência, ajoelhados em contas de lágrimas de Nossa Senhora. Muitos perderam suas fazendas.
“Mas, como sabe Vossa Eminência, anunciou-se que S.M.I., em sua generosa e santa sabedoria, decidiu anistiar os rebeldes de Sorocaba, do Serro, de Santa Luzia do Rio das Velhas, de Queluz e do Bonfim. Então, desde que a noticia chegou aqui, no Bonfim, Eusébio Fonseca Sorono sumiu. Sumiu, mas não sumiu para longe. Veio para esta freguesia, viajando pela Serra do Rola-Moça, e se escondeu em um retiro da fazenda do pai, homem bom, como já fiz menção a Vossa Eminência.
“Na quinta-feira de trevas, quando eu pregava aqui de nossa capela, em que vim oficiar na Semana Santa, eu o vi, de longe, em uma besta pampa, na estrada que vai para os Borges. Na sexta-feira, eu soube depois, ele ficou meio escondido nos matos, olhando o cruzeiro, enquanto nós fazíamos a via-sacra. Por isso, o Neca, que Vossa Eminência conhece, de quando aqui esteve para a crisma, e os amigos dele estranharam quando ele apareceu, ajudou a fazer o Judas, e se prontificou para ficar tomando conta do arraial que eles montaram para a queima do traidor de Nosso Senhor.
Tirou o boneco da forca, cortou a máscara de pano (...) botou as luvas do miserável inimigo de Deus      e se enforcou no lugar dele

“Quando o pessoal, com sono, foi para suas casas, imagine Vossa Eminência o que ele fez! Tirou o boneco da forca, cortou a máscara de pano, com os olhos, o nariz e a boca bordados por Sinhá Filó, enfiou na cabeça e na cara, botou as luvas do miserável inimigo de Deus e se enforcou no lugar dele.

“O demônio o ajudou, Deus que me perdoe, Eminência, porque ninguém deu pela coisa, até a tarde de sábado, quando o povo se reuniu para queimar o boneco. Neco sentiu a falta dele, Sorono, mas todo mundo sabia que ele andava esquisito ultimamente, depois que falaram em anistia, por isso não comentaram sua ausência. Quando jogaram azeite de mamona no Judas, e puseram fogo, e os panos incendiaram, houve o forte cheiro de carne queimada. Depressa, depressa, os pedaços de pano com fogo foram caindo, e apareceu o corpo de Eusébio Sorono dependurado no poste da forca. Houve um silêncio terrível, Eminência, as mulheres começaram a gritar, e eu, que estava a rezar meu breviário, saí correndo e cheguei a tempo de ver a corda arrebentar com o fogo e o corpo cair, estatelado no chão.
“Não deixei enterrar em terra sagrada. Falei com o pai dele que ia consultar a Vossa Eminência. Mandei que enterrassem provisoriamente, num terreno da fazenda da família.