quarta-feira, 4 de novembro de 2015

ANA ROSA CRESCIA ENTRE AS ROMÃS.




A ladeira  é a mesma, e os musgos  cinzentos do velho muro, que tanto encantavam Ana Rosa, fazem‑me parar nesta pedra, antes de continuar. Vejo a casa de meu tio. Ela envelheceu; as janelas, fechadas, são como olhos de desbotado azul.
Nestes quarenta anos muita coisa mudou: os turistas sobem a ladeira, espantam as avencas que sobrevivem entre as pedras da beira. Antes, quando, nas férias, voltávamos do campinho, onde buscávamos as gabirobas que apertavam na língua, a ladeira era menor. Eu corria atrás de Ana Rosa. Suas pernas eram rosadas e sardentas.
Como estará meu tio ? Naquele tempo ele iniciava a sua amizade com os fantasmas. Vinham, em grupos diferentes, em noites sem lua, jogar gamão e contar as safadezas dos tempos do Conde de Assumar.
Meu tio, às vezes, encontrava um e outro, quando voltava do correio. Parava, costumava sentar‑se à beira das ruas, em qualquer soleira de porta, e conversar longamente com os mortos; por isso o aposentaram ‑ e meu tio, com o ócio, dava mais de seu tempo a estes amigos, deixou os outros ‑ talvez os tempos que chegavam, com automóveis e o rádio, desencantassem‑no. Ele prefe­ria os mortos, também assustados, que temiam ser agarrados pela máquina fotográfica dos poucos turistas de então e, assim, serem devolvidos à vida, à monotonia das repartições públicas.
      Estou diante da porta. Um dia, nas férias de 36(ou 37) Ana Rosa me disse, à despedida: - Quero ir com você. Para onde você for. Meu tio, os olhos azuis e quietos, nada disse. Entre as férias, o tempo de escola parecia longo.

      Às vezes, alguém vinha de Ouro Preto, trazia‑me um envelope com passarinhos coloridos desenhados (sempre os mesmos estranhos rouxinóis bicando um coração de vivo vermelho). Dentro, a mensagem de Ana Rosa : fiapos de musgo verde, raminhos de avenca.
Ana Rosa crescia entre as romãs. Ao fazer quinze anos, ficamos noivos. Meu tio só disse "hum... hum..." quando meu pai lhe falou de nosso desejo de casar e explicou o pedido cedo:
‑ Posso morrer a qualquer hora. Queria ter a promessa de que viverão juntos.
A porta está encostada, como sempre. A velha Lavínia estará agora no fogão do quintal, fazendo o sabão da semana ou catando gravetos. É cedo ainda, cheguei bem cedo. Macedo seguiu viagem para Mariana, deixou‑me ao pé da ladeira : o volks não a escalaria.
Lavínia, morta minha tia, abandonou o sonho de casar‑se: veio cuidar de Ana Rosa. Os seios, virgens e vazios, não lhe serviam para alimentar a recém‑nascida. Mamãe viu‑a certa manhã, com Ana Rosa no colo, feliz. A menina sugava o mamilo infecunda­do. Lavínia tinha os olhos cerrados na substituída alegria.
Em agosto de 1942 ‑ que terrível agosto ! - tivemos as férias da guerra. Com o povo revoltado pelo afundamento dos navios brasileiros, fecharam‑se as escolas. Ana Rosa estava alegre, mostrou‑me as primeiras peças do enxoval que bordava. Seus seios eram rijos e belos.
Entro na casa. Ouço, do quarto de meu tio, as vozes sussuradas de seus convidados mortos. Na certa, a conversa demorou, não quiseram voltar bem tarde para o cemitério, cochilaram nas cadeiras de palhinha ouvindo meu tio mentir‑lhes. Velho vício este de meu tio: contentar a curiosidade dos mortos com estórias que inventava sobre os vivos.
Alí está o quarto de Ana Rosa. Eu voltava, naquele agosto, de Passagem de Mariana. Fora, com três outros, buscar tesouros. Na vol­ta, apanhei os galhos de quaresmeira florida para oferecer a Ana Rosa. Meu tio não estava. Lavínia corria, ladeira abaixo aos gritos:
‑ Ana Rosa dormiu de repente ! dormiu de repente e não quer acordar.
Encontrei‑a deitada sobre a cama. Desabotoei os sapatos e levei a mão ao seu seio esquerdo. Era a primeira carícia, tantas vezes sonhada. O coração já não batia, mas o resto do calor que animava a sua pele fina ficou‑me na mão, até hoje, como pássaro obediente.

Junto, na mesinha, o bastidor, com a peça de linho que Ana Rosa bordava. Apanhei a tesourinha e cortei‑lhe a madeixa de cabelos dourados. Nas orelhas, Ana Rosa trazia os brincos de ouro de Sabará.
Escondi a madeixa na fenda, junto à janela. Nunca mais voltei ao quarto.
Empurro, agora, docemente, a porta. O ranger é fino, doem-­me os nervos. O quarto está como estava: a cama, que Lavínia arrumou na manhã do sepultamento, cobre‑se da poeira do tempo.
Voltávamos do cemitério. Meu tio, depois de percorrer as tumbas amigas, gritou do portão:
‑ Mulher! Não deixe Ana Rosa sair no sereno ! Não  deixe ela  ficar resfriada !
Ana Rosa dormia com minha tia: a pétala, desfolhada, vol­tava à dália morta.
Há um suave perfume neste quarto. As cortinas, cerradas, estão corroídas pelas traças.
Levo a mão à fenda. Ali estão os cabelos de Ana Rosa. Retiro‑os com cuidado, volto à sala antiga. Da janela, fechada,  mas empenada, projeta‑se um sabre de luz. Sopro o pó dos cabelos e vejo‑os na claridade. Estão encanecidos ‑ como os meus próprios cabelos.
O rumor de meus passos assusta os mortos no quarto imenso de meu tio. Ouço‑os, levantando‑se, e escuto a voz de meu tio, que os tranquiliza:
      ‑ Não é nada. Ana Rosa deve ter ido à janela. Vai sempre à janela, à espera do primo que se foi e nunca mais voltou.


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